TEOLOGIA SISTEMÁTICA: Paul
Tillich (6ª Edição)
Volume I: A
Razão e a Revelação
INTRODUÇÃO
A teologia como função da igreja cristã, deve
servir às necessidades da igreja. Uma das necessidades básicas do sistema
teológico é a interpretação desta verdade para cada nova geração. Com o
fundamentalismo ocorre que a verdade teológica de ontem é defendida como
mensagem imutável contra a verdade teológica de hoje e amanhã. O fundamentalismo
fracassa na tentativa de entrar em contato com a situação presente. Eleva algo
finito e transitório a uma validez infinita e eterna. Neste sentido o
fundamentalismo tem traços demoníacos. O
fato de que as ideias fundamentalistas são avidamente recebidas em um período
de desintegração pessoal e comunitária não prova sua validade teológica. O polo
chamado "situação" não pode ser ignorado em teologia, sem
consequências perigosas.
Teologia apologética é teologia que dá
resposta. A única teologia real é a
querigmática. A teologia não pode evitar o problema da situação. A teologia
querigmática deve abandonar sua exclusiva transcendência. Deve assumir seriamente a tentativa da
teologia apologética de responder às perguntas apresentadas diante dela pela
situação contemporânea. Os homens normalmente são mais fortes em suas negações
do que em suas afirmações.
Tentativas de elaborar uma teologia como ciência
empírico-indutiva ou metafísico-diva ou metafísico-dedutiva, ou como uma
combinação de ambas, deram amplas evidências de que não chegam a ter o
teológico. Alguém pode ser teólogo só na medida em que reconhece o conteúdo do
círculo teológico como sua preocupação última.
Citando Marcos 12:29,
Tillich declara: “A preocupação teológica é última.” E acrescenta que além de
última, ela é “incondicional, total e infinita”. O objeto da teologia é aquilo
que nos preocupa de forma última. Só são teológicas aquelas proposições que tratam
de seu objeto na medida em que ele pode se tornar questão de preocupação última
para nós.
Idolatria é a elevação de
uma preocupação preliminar. Algo essencialmente condicionado é considerado como
incondicional. Algo essencialmente parcial é elevado à universalidade. E algo
essencialmente finito é revestido de significado infinito. Contradiz
radicalmente os mandamentos bíblicos, e o primeiro critério teológico.
Quadros, poemas e música
podem se tornar objeto da teologia. Intuições físicas, históricas ou psicológicas
podem se tornar objeto da teologia. Ideias e ações sociais, projetos e
procedimentos legais, programas e decisões políticas, podem se tornar objetos
de teologia. Problemas e desenvolvimentos da personalidade, alvos e métodos
educacionais, cura corporal e mental, podem se tornar objetos de teologia.
Nossa preocupação última é
aquilo que determina nosso ser ou não ser.
Nada pode ser de preocupação última para nós
se não tiver o poder de ameaçar e salvar o nosso ser. O termo “ser” significa a
totalidade da realidade humana, a estrutura, o sentido, e o alvo da existência.
O homem está infinitamente
preocupado pelo infinito ao qual pertence, do qual está separado, e pelo qual
anseia. O homem está totalmente preocupado pela totalidade, que é seu verdadeiro
ser, e que está desintegrada no tempo e no espaço. O homem está
incondicionalmente preocupado por aquilo que condiciona seu ser para além de
todas as condições nele e ao redor dele. O homem está de forma última,
preocupado por aquilo que determina seu destino último para além de todas as
necessidades e acidentes preliminares.
Teologia é a interpretação metodológica dos
conteúdos da fé cristã. É a tarefa de a teologia apologética provar que a
reivindicação cristã tem validez também do ponto de vista daqueles que estão
fora do círculo teológico. A teologia é tão antiga como a própria religião.
Todo mito contém um
pensamento teológico que pode ser, e de fato o foi muitas vezes tornado
explícito. A “teo-logia”, logos do theós, é uma interpretação racional da
substância religiosa dos ritos, símbolos e mitos.
A
teologia cristã recebeu algo que é absolutamente concreto e absolutamente
universal ao mesmo tempo. A teologia cristã é a teologia, na medida em que se
baseia na tensão entre o absolutamente concreto e o absolutamente universal.
Teologias sacerdotais e proféticas podem ser muito concretas, mas carecem de
universalidade. Teologias místicas e metafísicas podem ser muito universais,
mas carecem de concreticidade.
Só aquilo que tem o poder de
representar todo o particular é absolutamente concreto. E só aquilo que tem o
poder de representar todo o abstrato é absolutamente universal. Isto leva a um
ponto onde o absolutamente concreto e o absolutamente universal são idênticos.
E este é o ponto no qual emerge a teologia cristã. É o ponto descrito como sendo
o Logos que se tornou carne. (A teologia cristã se move entre os polos do
universal e do concreto e não entre os de abstrato e particular.) A doutrina do
Logos como doutrina da identidade do absolutamente concreto com o absolutamente
universal não é uma doutrina teológica entre outras. É o único fundamento
possível de uma teologia cristã que reivindica ser a teologia. Mas é necessário
aceitar a visão do cristianismo primitivo de que, se Jesus é chamado o Cristo,
deve representar tudo o que é particular. E deve ser o ponto de identidade
entre o absolutamente concreto e o absolutamente universal. A referência
bíblica a um desses aspectos é encontrada nas cartas de Paulo, quando ele falta
do estar em Cristo. Só podemos estar no que é absolutamente concreto e
absolutamente universal ao mesmo tempo.
Foi uma questão de vida e
morte para a igreja primitiva, o que a levou a usar a doutrina estóico-filônica
do logos para expressar o sentido universal do evento Jesus, o Cristo.
A questão da relação da teologia com as
ciências especiais se funde com a questão da relação entre teologia e filosofia.
Não existe uma definição de filosofia aceita em geral. A sugestão feita aqui é chamar filosofia de:
aquela abordagem cognitiva da realidade, na qual a realidade como tal é o
objeto. A partir deste ponto de vista a filosofia é por definição crítica.
O labor filosófico de
Aristóteles, Leibniz, Hegel, Wundt tornaram evidentes os limites da mente
humana e a finitude que impede compreender o todo. Só ficaram os princípios
gerais, sempre discutidos, questionados, mudados, mas nunca destruídos. Brilham
através dos séculos, reinterpretados por cada geração; inexauríveis, nunca são
antiquados ou obsoletos. Estes princípios são o material da filosofia.
Observemos dois exemplos: a
escola neo-kantiana e o positivismo lógico. Ambas as tentativas de evitar a
questão ontológica fracassaram. Já que o conhecer é um ato que participa do
ser.
A filosofia levanta a
pergunta pela realidade como um todo; ela pergunta pela estrutura do ser. E
responde em termos de categorias, leis estruturais e conceitos universais.
A teologia, ao lidar com
nossa preocupação última, pressupõe em toda sentença a estrutura do ser, suas
categorias, leis e conceitos. A teologia, portanto, não pode evitar a questão
do ser com mais facilidade do que o pode a filosofia. A própria Bíblia usa as
categorias e conceitos que descrevem a estrutura da experiência. Em cada página
de cada texto religioso ou teológico aparecem esses conceitos: tempo, espaço, causa,
coisa, sujeito, natureza, movimento, liberdade, necessidade, vida, valor,
conhecimento, experiência, ser e não ser. Portanto, o teólogo sistemático deve
ser um filósofo na compreensão crítica, mesmo que não o seja em poder criativo.
A filosofia lida com a estrutura do ser em si
mesma; a teologia lida com o sentido do ser para nós. Embora conduzido pelo Eros
filosófico, o filósofo tenta manter uma objetividade distanciada para com o ser
e suas estruturas. Assim, como todas as ciências têm sua origem na filosofia,
assim também elas contribuem por sua vez à filosofia.
O teólogo, ao contrário, não
se encontra distanciado de seu objeto, mas está envolvido nele. Ele olha para
seu objeto (que transcende o caráter de objeto) com paixão, temor e amor. Este
não é o Eros do filósofo ou sua paixão pela verdade objetiva; é o amor que
aceita a verdade salvadora, e, portanto pessoal. A atitude básica do teólogo é
de comprometimento com o conteúdo que expõe. O teólogo, em resumo, é
determinado por sua fé.
A teologia é necessariamente
existencial, e nenhuma teologia pode evitar o círculo teológico. O filósofo
olha a totalidade da realidade para descobrir dentro dela a estrutura da
realidade como um todo. O teólogo, por outro lado, deve olhar ali onde se
manifesta aquilo que o tem preocupado de forma última. A fonte de seu
conhecimento não é o logos universal, mas o Logos que se tornou carne, isto é,
o logos manifestando-se num evento histórico particular. O logos concreto que
ele vê é recebido através de um comprometimento de fé. Não é como o logos
universal, ao qual o filósofo olha, através de um distanciamento racional.
Também devemos considerar “a
diferença em seu conteúdo”. O teólogo, por outro lado, relaciona as mesmas
categorias e conceitos à pergunta por um ‘novo ser’. Suas afirmações têm
caráter soteriológico. Ele discute a causalidade em relação com a causa
primeira, o fundamento da série total de causas e efeitos; ele lida com o tempo
em relação à eternidade, com o espaço em relação à ausência de um lugar próprio
do homem na existência.
O filósofo, como o teólogo,
‘existe’ e não pode saltar sobre a concreticidade de sua existência e de sua
teologia implícita. Ele está condicionado por sua situação psicológica,
sociológica e histórica. Todo filósofo
criativo é um teólogo oculto (às vezes mesmo um teólogo declarado). O conflito
entre a intenção de tornar-se universal e o destino de permanecer particular
caracteriza toda existência filosófica. Este é seu fardo, bem como sua grandeza.
O teólogo carrega um fardo
análogo. Ele deve assumir o risco de ser conduzido além da linha-limítrofe do
círculo teológico. A teologia, já que serve não só ao logos concreto, mas
também ao universal, pode se tornar uma pedra de tropeço para a igreja e uma
tentação demoníaca para o teólogo. O distanciamento exigido num trabalho
teológico honesto pode destruir o envolvimento necessário da fé. Este tensão é
o fardo e a grandeza de todo trabalho teológico. Nem existe um conflito
necessário entre filosofia e teologia, nem é possível uma síntese entre elas.
A história da filosofia revela
que em todo filósofo de importância a paixão existencial (preocupação última) e
o poder racional (obediência ao logos universal) estão unidos.
Tillich declara que os
filósofos gregos prepararam inconscientemente a vinda de Cristo. “Os primitivos
gregos, por cuja cultura Nietzsche estava ansiando, não tiveram que combater o
Cristo. De fato, eles prepararam inconscientemente sua vinda. Elaboraram as
questões às quais Ele deu a resposta, e as categorias nas quais a resposta
podia ser expressa.”
Ameaçados pelo destino
demoníaco, as pessoas buscavam um destino salvador – queriam a ‘graça’. A
Filosofia, no seu desespero, clamou pela revelação. A revelação é a resposta às
perguntas implícitas nos conflitos existenciais da razão”.
O cristianismo não necessita
de uma "filosofia cristã" no sentido mais estrito do termo. A
reivindicação de que o logos concreto em Jesus como o Cristo é ao mesmo tempo o
logos universal, inclui a reivindicação de que, onde quer que o logos esteja
atuando, ele concorda com a mensagem cristã. Nenhuma filosofia que é obediente
ao logos universal pode contradizer o logos concreto, o Logos que se tornou
carne.
Teologia é a explanação metódica dos conteúdos
da fé cristã. O critério de qualquer disciplina teológica é se ela lida com a
mensagem cristã como sendo questão de preocupação última ou não. Na mensagem cristã a história é teológica, e a
teologia é histórica. O critério para que uma disciplina seja ou não teológica
não é sua origem pretensamente sobrenatural, mas seu significado para a
interpretação de nossa preocupação última.
As doutrinas da finitude e
existência, da ansiedade e culpa, são simultaneamente ontológicas e éticas
quanto a seu caráter. Dogmática é a afirmação da tradição doutrinal para nossa
situação presente. E a igreja está baseada num fundamento, cuja formulação
protetora está dada nos credos. A teologia prática pode se tornar uma ponte
entre a mensagem cristã e a situação humana. Ela pode preservar a igreja do tradicionalismo
e do dogmatismo.
A Bíblia é o documento original sobre os
eventos em que está baseado o cristianismo. E a mensagem bíblica não se
tornaria mensagem para ninguém, incluindo o próprio teólogo, sem a participação
experiencial da igreja e de todo cristão. Se a ‘palavra de Deus’ ou o ‘ato da
revelação’ é chamado à fonte da teologia sistemática, devemos enfatizar que a
‘Palavra de Deus’ não está limitada às palavras de um livro. A teologia sistemática, portanto, tem fontes adicionais,
além da Bíblia. A Bíblia, contudo, é a fonte básica da teologia sistemática. Ela
contém o testemunho original daqueles que participaram nos eventos reveladores.
A inspiração dos escritores bíblicos é sua resposta receptiva e criativa a fatos
potencialmente reveladores. O ato da recepção é uma parte do próprio evento.
O teólogo bíblico nos dá
fatos teologicamente interpretados. Ele une filologia e devoção ao lidar com os
textos bíblicos. A Bíblia é a Palavra de Deus em dois sentidos. É o documento
da revelação final; e participa na revelação final da qual ela é o documento.”
A teologia sistemática
necessita de uma teologia bíblica que seja histórico-crítica sem quaisquer
restrições. O Novo Ser em Jesus como o Cristo é a resposta à pergunta levantada
implícita e explicitamente pelas religiões da humanidade. Tillich definiu assim
a Teologia da cultura: “Esta é uma tentativa de analisar a teologia que está
por trás de todas as expressões culturais”.
A experiência é o meio
através do qual as fontes ‘falam’ a nós, através do qual podemos recebê-las. Experiência
não é a fonte da qual são tirados os conteúdos da teologia sistemática, mas o
meio através do qual eles são existencialmente recebidos. No pragmatismo ocorre
a elevação da experiência ao grau ontológico mais alto.
Alguns dos teólogos
empíricos tentaram aplicar o método da experiência científica à teologia. Mas
eles nunca tiveram bons resultados e nem poderiam por duas razões. Primeiro, o
objeto da teologia (isto é, nossa preocupação última e suas expressões
concretas) não é um objeto dentro da totalidade da experiência científica. Não
pode ser descoberto por observação distanciada ou por conclusões derivadas de
tal observação. Só pode ser encontrado em atos de entrega e participação.
Segundo, não pode ser testado por métodos científicos de verificação. Nestes
métodos o sujeito que testa se conserva fora da situação de teste. E se isto é
parcialmente impossível, como por exemplo, na microfísica, ele inclui os
efeitos deste fato em seus cálculos. O objeto da teologia só pode ser
verificado por uma participação na qual o teólogo que testa se arrisca a si
mesmo no sentido último de ‘ser ou não ser’.
Para os reformadores, a
experiência não era uma fonte de revelação. O Espírito divino testemunha em nós
a respeito da mensagem bíblica. O Espírito não dá nenhuma revelação nova. Experiência
como presença inspiradora do Espírito é a fonte última da teologia. Experiência
aberta é a fonte da teologia sistemática.
A teologia cristã se baseia
no evento único Jesus o Cristo. E, apesar do sentido infinito deste evento,
permanece só este evento. Como tal, ele é o critério de toda experiência
religiosa. Este evento está dado à experiência e não se deriva dela. Portanto,
a experiência recebe e não produz. Até mesmo o santo deve ouvir aquilo que o
Espírito diz ao seu espírito.
A igreja desenvolveu uma norma doutrinal
(resposta material: credos, confissões) e também uma hierarquia de autoridades
(resposta formal: bispos, concílios, Papa - para salvaguardar contra distorções
heréticas). Nas igrejas católicas (romana, grega, anglicana) a segunda resposta
se tornou tão predominante, que desapareceu a necessidade de uma norma
material. E é a razão porque a Bíblia teve tão pouca influência no
desenvolvimento dogmático posterior das igrejas grega e romana. A justificação
e a Bíblia em interdependência mútua foram às normas da reforma luterana. No
calvinismo a justificação foi cada vez mais substituída pela predestinação.
O leitor solitário da Bíblia
de forma alguma se encontra fora da igreja. Ele recebeu a Bíblia, colecionada e
preservada pela igreja através dos séculos. Ele recebeu o livro através da
atividade da igreja ou algum de seus membros.
Não é exagero dizer que hoje
o homem experimenta sua presente situação em termos de dilaceração, conflito,
auto-destruição, falta de sentido e desespero em todos os reinos da vida. Esta
situação se exprime na arte e na literatura, está conceitualizada na filosofia
existencial, concretizada nas divisões políticas de todos os tipos, e analisada
na psicologia do inconsciente. É a
questão de uma realidade na qual seja superada a auto-alienação de nossa
existência, uma realidade de reconciliação e reunião, de criatividade, sentido
e esperança.
O Cristo é aquele que traz o
novo eon, a nova realidade. E é o homem Jesus quem, numa afirmação paradoxal, é
chamado o Cristo. Sem este paradoxo o Novo Ser seria um ideal, não uma
realidade. A norma material da teologia sistemática hoje é o Novo Ser em Jesus
como o Cristo enquanto nossa preocupação última.
A respeito de Lutero: Ele
deu uma norma material, segundo a qual os livros bíblicos deveriam ser
interpretados e avaliados, a saber: a mensagem do Cristo ou da justificação
através da fé. À luz desta norma ele interpretou e julgou todos os livros bíblicos.
Deve-se encontrar um caminho intermédio entre a prática católico-romana e a
prática protestante radical. A norma da
teologia sistemática pode ser chamada de produto da experiência coletiva da
igreja.
Chamaremos o órgão com o qual recebemos os
conteúdos da fé de razão auto transcendente ou extática. Mas, a razão não é a
fonte da teologia. Ela não produz seus conteúdos. A razão não produz um objeto de preocupação
última por processos lógicos, como tentou fazê-lo uma teologia errônea em seus argumentos
a favor da existência de Deus. Os conteúdos da fé possuem a razão.
No reino da vida espiritual
as palavras não podem ser reduzidas a equações matemáticas.
A teologia é tão dependente
da forma lógica, quanto qualquer outra ciência. A dialética segue o movimento
do pensamento ou o movimento da realidade através do sim e do não. A doutrina
da trindade descreve, em termos dialéticos, o movimento interno da vida divina
como uma eterna separação de si mesma e retorno a si mesma.
O pensamento dialético não
está em conflito com a estrutura do pensamento. A dialética teológica não viola
o princípio da racionalidade lógica. Existe, em última análise, só um paradoxo
genuíno na mensagem cristã: o aparecimento daquele que conquista a existência,
sob as condições da existência. Encarnação, redenção, justificação, etc., estão
implícitas neste evento paradoxal. Não é uma contradição lógica que o torna um
paradoxo, mas o fato de que ele transcende todas as expectativas e
possibilidades humanas. Ele irrompe no contexto da experiência e da realidade,
mas não pode ser derivado delas. A aceitação deste paradoxo não é a aceitação
do absurdo, mas é o estado de ser possuído pelo poder daquilo que irrompe em
nossa experiência a partir de cima. O paradoxo em religião e teologia não conflita
com o princípio da racionalidade lógica. O paradoxo tem seu lugar lógico.
O método de correlação é um
ponto de vista apologético e efetuado em correlação com a filosofia. Uma forma
de unir mensagem e situação. Ele tenta correlacionar às perguntas implícitas na
situação, com as respostas implícitas na mensagem. Ele correlaciona perguntas e
respostas, situação e mensagem, existência humana e manifestação divina.
O método é um instrumento,
literalmente um ‘caminho através de’, que deve ser adequado a seu assunto. Método
e sistema se determinam mutuamente. Portanto, nenhum método pode reivindicar
ser adequado para qualquer assunto.
O método da correlação
explica os conteúdos da fé cristã através de perguntas existenciais e de
respostas teológicas, em interdependência mútua. Deus em sua auto manifestação
ao homem é dependente da forma em que o homem recebe sua manifestação. A
relação divino-humana é uma correlação também em seu aspecto cognitivo. Falando
simbolicamente, Deus responde às perguntas do homem. E sob o impacto das
respostas de Deus, o homem levanta perguntas. A teologia formula as perguntas
implícitas na existência humana. E a teologia formula as respostas implícitas
na auto manifestação divina, sob a guia das perguntas implícitas na existência
humana.
O homem possui a capacidade
de perguntar pelo infinito ao qual ele pertence: o fato de que o homem deve
perguntar por ele indica que se encontra separado do mesmo. Só aqueles que
experimentaram o choque da transitoriedade, a ansiedade na qual se tornam
conscientes de sua finitude, e a ameaça do não-ser, podem entender o que
significa a palavra de Deus. Só os que experimentaram as ambiguidades trágicas
de nossa existência histórica e questionaram totalmente o sentido da existência
podem compreender o que significa o símbolo: Reino de Deus. A revelação
responde perguntas que foram levantadas e sempre serão levantadas, pois estas
perguntas somos ‘nós’ mesmos. O homem é a pergunta que ele formula a respeito
de si mesmo, antes que qualquer outra pergunta possa ser formulada. Ser humano
significa formular as perguntas sobre o próprio ser, e viver sob o impacto das
respostas dadas a elas. E, reciprocamente, ser humano significa receber
respostas à pergunta do próprio ser e formular perguntas sob o impacto das
respostas.
O método de correlação faz
uma análise da situação humana, a partir da qual surgem as perguntas
existenciais. E demonstra que os símbolos usados na mensagem cristã são respostas
a estas perguntas. Toda vez que o homem contemplou seu mundo, ele se descobriu
como parte dele. Mas ele descobriu também que é um estranho no mundo dos
objetos, incapaz de penetrá-lo além de certo nível de análise científica.
Quem penetrou na natureza de
sua própria finitude pode encontrar traços da finitude em tudo o que existe. A
respeito de Calvino: “Ele fala da miséria do homem, que dá a base existencial
para sua compreensão da glória de Deus. E fala da glória de Deus, que dá a base
essencial para sua compreensão do homem de sua miséria”.
A análise da existência,
inclusive o desenvolvimento das perguntas implícitas na existência, é uma
tarefa filosófica. Como filósofo ele não diz a si mesmo o que é teologicamente
verdadeiro. Mas podem ajudar a ver a existência humana e a existência em geral
de tal forma que os símbolos cristãos apareçam a ele cheios de sentido e
compreensão.
A pergunta é a própria
existência humana. Deus é a resposta implícita na questão da finitude humana.
Esta resposta não pode ser derivada de uma análise da existência. Contudo, se a
noção de Deus aparece na teologia sistemática em correlação com a ameaça do não
ser que está implícita na existência. Deus deve ser chamado de poder infinito
do ser, que resiste à ameaça do não ser. Na teologia clássica isto é o ser em si.
Se definimos ansiedade como a consciência do ser finito, Deus deve ser chamado
de fundamento infinito da coragem. Na teologia clássica isto é a providência
universal. Se a noção de Reino de Deus aparece em correlação com o enigma de
nossa existência histórica, Ele deve ser chamado de sentido, plenitude e
unidade da história. Desta forma se consegue uma interpretação dos símbolos
tradicionais do cristianismo que preservam o poder destes símbolos e que os
abre às perguntas elaboradas pela nossa presente análise da existência humana.
PARTE
1
Sempre houve a ameaça de que
o ‘raciocinar’ se pudesse separar da razão. Desde a metade do século dezenove
esta ameaça se tornou uma realidade dominante. Em algumas formas de positivismo
lógico o filósofo rejeita até mesmo ‘compreender’ qualquer coisa que transcenda
a razão técnica, tornando assim sua filosofia completamente irrelevante para
questões de preocupação existencial. A razão técnica, não obstante ser
competente em aspectos lógicos e metodológicos, desumaniza o homem quando está
separada da razão ontológica. E, além disso, a própria razão técnica se
empobrece e corrompe quando não se nutre continuamente da razão ontológica. Nem
estruturas, processos, Gestalt, valores, nem sentidos podem ser compreendidos
sem a razão ontológica. A razão técnica sempre teve uma função importante,
mesmo na teologia sistemática. Mas a razão técnica é adequada e significativa
só como expressão da razão ontológica e como sua companheira.
Por exemplo, a teologia não
pode aceitar o auxílio da razão no ‘raciocinar’ a existência de Deus. Tal Deus
pertenceria à relação meios/fins. Ele seria menos do que um Deus. Por outro
lado, a teologia não fica perturbada pelos ataques à mensagem cristã feita pela
razão técnica. Esses ataques não atingem o nível no qual se firma a religião.
Eles podem destruir superstições, mas nem mesmo atingem a fé. Onde quer que
domine a razão técnica, a religião é superstição e é ou mantida estupidamente
pela razão, ou rejeitada corretamente por ela.
A razão técnica é um
instrumento. E, como todo instrumento, ele pode ser mais ou menos perfeito, e
pode ser usado mais ou menos habilmente. Mas em seu uso nenhum problema
existencial está envolvido. A situação é totalmente diferente com respeito à
razão ontológica. O erro da filosofia idealista foi que ela identificou
revelação com razão ontológica, ao mesmo tempo em que rejeitou as reivindicações
da razão técnica. Razão ontológica pode ser definida como a estrutura da mente
capaz de compreender e estruturar a realidade. A mente recebe e reage. Ao
receber racionalmente, a mente compreende seu mundo. Ao reagir racionalmente, a
mente estrutura seu mundo. Transformamos a realidade de acordo com a forma como
nós a vemos. E nós vemos a realidade de acordo com a forma com que a
transformamos. Em todo ato racional está presente um elemento emocional.
A vida, assim como a mente, é criativa. Só
podem viver aquelas coisas que incorporam uma estrutura racional. Os seres
vivos são ensaios exitosos da natureza para se atualizar de acordo com as
exigências da razão objetiva. Se a natureza não segue estas exigências, seus
resultados são ensaios frustrados.
O mito não é ciência
primitiva, nem o culto, moralidade primitiva. Seu conteúdo, assim como a
atitude das pessoas para com eles, revela elementos que transcendem tanto a
ciência, quanto a moralidade. O mito e o culto contradizem a razão essencial.
Eles traem, por sua própria existência, o estado ‘caído’ da razão. Ela perdeu a
unidade imediata com sua própria profundidade. Se, contudo, o mito e o culto
são considerados como expressão da profundidade da razão de forma simbólica,
eles permanecem numa dimensão onde não é possível nenhuma interferência com as
funções próprias da razão. Onde quer que o conceito ontológico da razão for
aceito e a profundidade da razão for compreendida, não é necessário nenhum
conflito entre mito e conhecimento, entre culto e moral. A revelação não
destrói a razão. Mas a razão levanta a pergunta pela revelação.
O ser é finito, a existência
é autocontraditória, e a vida é ambígua. O homem se conscientiza do infinito que
está presente em todo finito. Apesar de sua finitude, a razão se conscientiza
de sua profundidade infinita.
As categorias da experiência
são categorias da finitude. Elas não capacitam a razão humana a compreender a
realidade-em-si. Mas elas capacitam o homem a compreender seu mundo, a
totalidade dos fenômenos que aparecem a ele, e que constituem sua experiência
atual. A principal categoria da finitude é o tempo. Ser finito significa ser
temporal. A razão não pode romper os limites da finitude e alcançar o eterno.
Ela também não pode romper os limites da causalidade, espaço e substância, para
alcançar a causa primeira, o espaço absoluto, a substância universal.
A queda de uma razão deificada
após Hegel contribuiu decisivamente para a entronização da razão técnica em
nosso tempo e para a falta de universalidade e de profundidade da razão
ontológica.
Na vida atual da razão as
forças essenciais e existenciais, forças de criação e de destruição, estão
unidas e desunidas ao mesmo tempo. Estes conflitos na razão atual dão o
conteúdo para uma crítica teológica justificável da razão. Mas uma acusação da
razão como tal é um sintoma de ignorância teológica, ou de arrogância
teológica. Por outro lado, um ataque à teologia como tal em nome da razão é um
sintoma da superficialidade racionalista ou de hybris racionalista. A razão
deve ser levada a reconhecer sua própria alienação existencial.
Autonomia significa a obediência do indivíduo
à lei da razão, que ele encontra em si mesmo como um ser racional. É a
obediência à sua própria estrutura existencial, à lei da razão que é a lei da
natureza dentro da mente e da realidade. Esta é a lei divina, enraizada no
fundamento do próprio ser.
A heteronomia impõe uma
estranha (heteros) lei (nomos) sobre uma ou todas as funções da razão. Ela
emite ordens a partir de "fora", sobre como a razão deveria compreender
e estruturar a realidade.
O problema da heteronomia é
o problema de uma autoridade que reivindica representar a razão, contra sua
atualização autônoma. Uma autoridade heterônoma geralmente se expressa em
termos de mito e culto porque estas são as experiências diretas e intencionais
da profundidade da razão. Heternomia nesse sentido em geral é uma reação contra
uma autonomia que perdeu sua profundidade e se tornou vazia e sem poder.”
Autonomia e heteronomia
estão enraizadas na teonomia. Cada uma delas se perde quando sua unidade
teônoma se rompe. Teonomia não significa aceitação de uma lei divina imposta
sobre a razão por uma autoridade mais elevada. Significa razão autônoma unida à
sua própria profundidade. Numa situação teônoma, a razão se atualiza a si mesma
em obediência a suas leis estruturais e no poder de seu próprio fundamento
inexaurível. Já que Deus (Theós) é a lei (nomos) tanto para a estrutura quanto
para o fundamento da razão, eles estão unidos nele. Sua unidade é manifesta
numa situação teônoma. Mas não há teonomia completa sob as condições da
existência. [...] Portanto, a pergunta pela reunião daquilo que sempre está
partido no tempo e no espaço surge da razão, e não em oposição à razão. Esta
pergunta é a pergunta pela revelação.”
“Ao final do período
medieval a heteronomia se tornou todo-poderosa (Inquisição).”
O Renascimento mostrou um
caráter teônomo no início, para se desenvolver como autônomo.
Também a Reforma enfatizou a
autonomia no início (Lutero confiava em sua consciência, e Calvino e Zwinglio
tinham ligação com os humanistas). Mas com o desenvolvimento da ortodoxia
protestante, a Reforma “muito cedo se converteu em uma heteronomia ainda pior
do que a da Idade Média posterior”.
“Sob a guia da razão técnica
a autonomia conquistou todas as reações, mas perdeu completamente a dimensão da
profundidade. Ela se tornou vazia, superficial, sem um sentido último, e
produziu desespero consciente ou inconsciente. Nesta situação, poderosas
autonomias de caráter quase político entraram no vazio criado por uma autonomia
que carecia da dimensão de profundidade. A dupla luta contra uma autonomia
vazia e uma heteronomia destrutiva torna a pergunta por uma nova teonomia tão
urgente hoje como o foi no fim do mundo antigo. A catástrofe da razão autônoma
é total. Nem autonomia nem heteronomia, isoladas e em conflito, podem dar a
resposta.”
Relativismo contra absolutismo.
“O elemento estático impede
a razão de perder sua identidade dentro do processo vital. O elemento dinâmico
é o poder da razão de atualizar-se a si mesma racionalmente no processo da
vida, ao passo que sem o elemento estático a razão não poderia ser a estrutura
da vida. Sob as condições da existência os dois elementos se separam um do
outro e sem movem um contra o outro.”
“O elemento estático da
razão aparece em duas formas de absolutismo - o absolutismo da tradição e o
absolutismo da revolução. O elemento dinâmico da razão aparece em duas formas
de relativismo - relativismo positivista e relativismo cínico.”
“Mas depois que um
absolutismo é destruído por um ataque revolucionário, o vencedor se estabelece
igualmente em termos absolutos.”
“A razão revolucionária crê
tão profundamente quanto o tradicionalismo que ela representa a verdade
imutável.”
“Isso mostra que os dois
tipos de absolutismo não são exclusivos: eles se supõem um ao outro.”
“Cinismo é a atitude de
superioridade, ou indiferença para com qualquer estrutura racional, seja
estática ou dinâmica. [...] Seu castigo é o espaço vazio que ele produz, o
vácuo completo dentro do qual incorrem novos absolutismos.”
“O criticismo combina um
elemento positivista com um revolucionário excluindo tradicionalismo, bem como
cinismo. Sócrates e Kant são representantes da atitude crítica na filosofia.”
“[...] tanto no mundo
antigo, quanto no mundo moderno, o criticismo foi incapaz de superar o conflito
entre absolutismo e relativismo. Só aquilo que é absoluto e concreto ao mesmo
tempo pode superar este conflito. Só a revelação pode fazê-lo.”
Criação e queda.
Com a criação aconteceu a
passagem da essência para a existência. Por isso, criação e queda são
inseparáveis.
“A vida divina é criativa,
atualizando-se em abundância inexaurível. A vida divina e a criativdade divina
não são diferentes. Deus é criativo porque é Deus.”
“A doutrina da criação não é
a história de um evento que aconteceu “uma vez antigamente”. É a descrição
básica da relação entre Deus e o mundo. É o correlato à análise da finitude do
homem. Ela responde à questão implícita na finitude do homem e na finitude em
geral. Ao dar essa resposta, descobre-se que o sentido da finitude é a
criaturalidade. A doutrina da criação é a resposta à questão implícita na
criatura como criatura. Esta questão é levantada continuamente e sempre é
respondida na natureza essencial do homem. A questão e a resposta estão além da
potencialidade e atualidade, assim como todas as coisas o estão no processo da
vida divina. Mas de fato a questão é levantada e não respondida na situação existencial do homem. O caráter da
existência é que o homem levanta a questão de sua finitude sem receber uma
resposta. Segue-se que, mesmo que houvesse algo como uma teologia natural, ela
não conseguiria atingir a verdade da criatividade de Deus e da criaturalidade
do homem. A doutrina da criação não descreve um evento. Ela aponta para a
situação de criaturalidade e seu correlato, a criatividade divina.
Já que a vida divina é
essencialmente criativa, devem ser usados os três modos do tempos para
simbolizá-la. Deus criou o o mundo, é criativo no momento presente e plenificará criativamente seu telos. Portanto, devemos falar em
criação originante, criação mantenedora, e criação diretiva. Isso significa que
não só a preservação do mundo, mas também a providência estão incluídas na
doutrina da criatividade divina.” (Teologia
Sistemática, p. 212 e 213).
“Todas reconheceram que a
existência não pode ser derivada de dentro da existência; que ela não pode ser
derivada de um evento individual no tempo e no espaço. Eles reconheceram que a
existência tem uma dimensão universal.” (Teologia
Sistemática, p. 272 e 273).
“Criação e Queda coincidem
na medida em que não existe um ponto no tempo e no espaço no qual a bondade
criada se atualizasse e tivesse existência. Essa é uma conseqüência necessária
da rejeição da interpretação literal da história do paraíso. Não havia “utopia”
no passado, assim como não haverá “utopia” no futuro. Criação atualizada e
existência alienada são idênticas. Só o literalismo bíblico tem o direito
teológico de negar essa afirmação. Aque que exclui a idéia de um estágio
histórico da bondade essencial não deveria tentar escapar da consciência disso.
Isso é ainda mais óbvio se se aplica o símbolo da Criação à totalidade do
processo temporal. Se Deus cria aqui e agora, tudo o que ele cria participa da
transição da essência à existência. Ele cria a criança recém-nascida; mas,
quando criada, ela cai no estado de alienação existencial. Esse é o ponto de
coincidência entre Criação e Queda. Mas não é uma coincidência lógica; pois a
criança, quando chega à maturidade, afirma o estado de alienação em atos de
liberdade, que implicam em responsabilidade e culpa. Criação é boa em seu
caráter essencial. Se atualizada, cai na alienação universal através da
liberdade e do destino.” (Teologia
Sistemática, p. 277 e 278).
O Sentido da Salvação.
“O termo ‘salvação’ tem
tantas conotações quantas são as negatividades que necessitam de salvação. Mas
pode-se distinguir salvação em relação à negatividade última [ ..]. a exclusão
da unidade universal do Reino de Deus, a exclusão da vida eterna”.
“[...] pode ser adequado
interpretar salvação como ‘cura’. [...] Nesse sentido, curar significa reunir
aquilo que está alienado, dar um centro àquilo que está disperso, superar o
abismo entre Deus e o homem, entre o homem e seu mundo, e do homem consigo
mesmo. [...] Salvação é a saída do antigo ser e a transferência para o Novo
Ser.”
Quanto à universalidade da
salvação em Jesus como o Cristo: “Somente se salvação é entendida como poder
salvador e curador através do Novo Ser na história toda, o problema fica
colocado em seu devido lugar.”
“Jesus como o Cristo é o
Salvador através do significado universal de seu ser como Novo Ser.”
“Ele é Mediador na medida em
que consegue reconciliar.”
“Em Cristo a eterna unidade
Deus-Homem apareceu sob as condições da existência.”
“Mas a mensagem do
cristianismo é que Deus, que é eternamente reconciliado, quer que nos
reconciliemos com ele. Deus se revela a nós e nos reconcilia com ele através do
Mediador. Deus é sempre aquele que age, e o mediador é aquele através de quem
ele age.”
Doutrinas
de Expiação.
“O ato divino supera a
alienação entre Deus e o homem na medida em que essa é uma questão de culpa
humana. Na expiação, a culpa humana é eliminada como fator que separa o homem
de Deus.”
“O
malogro que Satanás sofreu por parte de Cristo tem uma dimensão metafísica
profunda. Ele aponta para a verdade de que o negativo vive do positivo, ao qual
distorce. Se ele vencesse completamente o positivo, destruiria a si mesmo.
Satanás nunca pode prender Cristo, pois Cristo representa o positivo da
existência porque representa o Novo Ser. A traição de Satanás é um motivo
espalhado em toda história da religião, porque Satanás, o princípio da negação,
não tem realidade independente.”
“A mensagem de um amor
divino que desrespeite a mensagem da justiça divina não pode dar ao homem uma
consciência tranqüila.”
“Ele começa com a tensão que
há em Deus entre sua ira e seu amor e mostra que a obra de Cristo torna
possível que Deus exercite sua misericórdia sem violar as exigências da
justiça. O valor infinito do sofrimento de Cristo dá satisfação a Deus e torna
desnecessário o castigo do homem pelo peso infinito de seu pecado. Só o
Deus-Homem poderia fazer isso porque, enquanto Homem, ele podia sofrer e,
enquanto Deus, ele não tinha que sofrer por seus próprios pecados.”
“[...] os processos
expiatórios são criados por Deus e tão somente por Deus”.
“Mas a justiça de Deus é o
ato através do qual ele permite que as conseqüências auto-destrutivas da
alienação existencial se desencadeiem. ... a justiça é a forma estrutural do
amor sem a qual esse seria puro sentimentalismo.”
“[...] a atividade
expiatória de Deus deve ser entendida como sua participação na alienação
existencial e em suas conseqüências auto-destrutivas”.
“A consciência culpada que
olha para a Cruz vê o ato expiatório de Deus em e através dela, a saber, o fato
de que ele assume as conseqüências da alienação existencial sobre si mesmo.”
“Deus participa do
sofrimento da alienação existencial, mas seu sofrimento não é um substituto
para o sofrimento da criatura. Nem o sofrimento de Cristo é um substituto para
o sofrimento do homem.”
Encarnação.
“O Logos, o princípio de
toda manifestação divina, torna-se um ser há história, sob as condições da
existência.”
Quando Deus se manifesta,
ele se expressa a si mesmo por intermédio do Logos divino.
“O Logos revela o mistério e
reúne o que está alienado, mediante seu aparecimento como realidade histórica
numa vida pessoal. [...] Ele se sujeita às condições de existência e conquista
a alienação existencial dentro da existência alienada. A participação no Logos
universal é dependente da participação no Logos atualizado numa personalidade
histórica. O cristianismo substitui o homem sábio do estoicismo pelo homem
Espiritual.”
“Mas Deus não tem essência
separada de existência, pois ele está para além de essência e existência.”
“A afirmação de que Jesus
como Cristo é a unidade pessoal de uma natureza divina e uma humana deve ser
substituída pela afirmação de que em Jesus como Cristo a unidade eterna de Deus
e homem se tornou realidade histórica.”
“Esse evento não teria
ocorrido se não houvesse uma unidade eterna de Deus com o homem dentro da vida
divina.”
“Essa unidade [...] no
evento único Jesus como o Cristo tornou-se atualizada constra a desintegração
existencial.”
“Quando o cristianismo usa o
termo ‘Encarnação’, ele tenta expressar o paradoxo de que aquele que transcende
o universo aparece nele sob suas condições.”
“A encarnação do Logos não é
metamorfose mas sua manifestação total numa vida pessoal.”
“Já que o protestantismo
afirma a justificação do pecador, assim também exige uma cristologia de
participação do Cristo na existência pecaminosa, incluindo, ao mesmo tempo, sua
vitória. O paradoxo cristológico e o paradoxo da justificação do pecador são um
e mesmo paradoxo. É o paradoxo de Deus aceitando um mundo que o rejeita.”
“[...] o Novo Ser participa
na existência e conquista-a”.
Providência de Deus
Providência significa
pre-ver, que é um pre-ordenar. Deparamo-nos com a ambigüidade do sentido de
providência.
Se acentuamos o significado
de prever, “Deus se torna um espectador onisciente, que sabe o que vai
acontecer, mas que não interfere na liberdade de suas criaturas”. Deus é
reduzido a um espectador.
Se enfatizamos a dimensão de
pre-ordenar, Deus é transformado no planejador que ordenou tudo o que acontece.
Os acontecimentos são apenas a execução do plano divino estabelecido desde
sempre. Deus é o único agente ativo.
Estas duas interpretações de
providência devem ser rejeitadas.
Com seu agir, Deus sempre
cria através da liberdade do ser humano. Deus atua de um modo criativo através
dos acontecimentos. Mesmo os acontecimentos contrários à vontade de Deus são
incluídos no agir criativo divino. Deus age de um modo criativo até mesmo
através das conseqüências destrutivas da resistência contra a atividade divina.
Tudo é incluído em seu agir criativo. Deus aproveita a liberdade humana e
também o destino para conduzir os acontecimentos à plenitude. Providência é
criação que se faz presente em toda situação. Mesmo em meio a uma tragédia,
Deus continua com o controle dos acontecimentos.
Crer na providência de Deus
significa afirmar que nenhum acontecimento é capaz de frustar a realização do
plano divino. Nada pode nos separar do amor de Deus revelado em Cristo Jesus.
Liberdade e destino
“À
luz desta análise de liberdade se torna compreensível o sentido de destino.
Nosso destino é aquilo a partir do qual surgem nossas decisões. [...] O destino
não é um poder estranho que determina aquilo que irá acontecer a mim. É minha
própria pessoa, tal como dada, formada pela natureza, pela história e por mim
mesmo. Meu destino é a base de minha liberdade; minha liberdade participa da
estruturação de meu destino.
Só quem tem liberdade tem um
destino. As coisas não têm destino porque não têm liberdade. Deus não tem
destino, porque ele é liberdade. A
palavra “destino” aponta [...] não para o oposto de liberdade, mas para suas
condições e limites. [...]
Já que liberdade e destino
constituem uma polaridade ontológica, tudo o que participa do ser deve
participar desta polaridade. [...]
A natureza não obedece – ou
desobedece – a leis no sentido em que o faz o homem; na natureza a
espontaneidade está unida à lei, da mesma forma que liberdade está unida ao
destino no homem. [...]
A analogia com a liberdade
em todos os seres torna impossível uma determinação absoluta. As leis da
natureza são leis para unidades autocentradas com reações espontâneas. A
polaridade de liberdade e destino é válida para tudo o que é.” (Teologia Sistemática, p. 158 e 159).
Mediador
Mediar é estabelecer uma
ponte sobre o abismo intransponível entre o infinito e o finito.
Mediação é reunião. É
religar o incondicional e o condicionado.
A função do mediador é
salvífica. Mediação e salvação provêm de Deus.
Cristo é esperado como
mediador e salvador, pois ele representa Deus perante o ser humano. As pessoas
vivem sob as condições da existência. E Cristo representa aquilo que o ser
humano é em essência: o que ele deveria ser sob as condições da existência.
Cristo é o homem essencial, e por sua própria natureza ele representa Deus. Ele
representa a imagem de Deus no homem. E desempenha sua função sob as condições
de alienação entre Deus e o ser humano.
Esta é a dialética do
infinito e do finito: a humanidade essencial inclui a união entre Deus e o ser
humano.
E este é o paradoxo do
Evangelho: a humanidade essencial apareceu em uma vida pessoal. E assim
aconteceu sob as condições da existência sem que as mesmas predominassem.
O Logos se tornou carne.
O termo “carne” representa a
existência histórica. Deus se manifesta numa vida pessoal tornando-se salvador
da condição humana. Deus participa naquilo que está separado dele.
O homem essencial aparece sob as condições de
alienação existencial.
Jesus de Nazaré representa a
história humana. Em sua vida apareceu o homem essencial na existência. Esse
evento central cria o sentido da história humana. Em Cristo se manifesta a
eterna relação de Deus com o ser humano.
O infinito entrou no finito
para superar a alienação existencial.
O Messias é o portador do
novo ser. Sua vinda foi cercada de expectativa. E sua vinda aconteceu porque
Deus ama o mundo.
Fé
e dúvida.
Tillich salientou que fé é
estar possuído pelo incondicional. Trata-se de um ato da pessoa inteira. A
preocupação última pede submissão total. Ele também apontou para a dimensão da
fé: ela é a superação da dicotomia entre finito e infinito. E a fé também
implica comunhão.
É importante observar que a
preocupação última pode até ser falsa, como a busca exclusiva do sucesso e da
prosperidade, mas é uma fé. Sempre que algo condicional é elevado à categoria
de absoluto, o resultado é uma profunda decepção. Seguidas decepções desembocam
em depressão. Por isso, a fé pode salvar ou destruir a pessoa. Se o conteúdo da
fé é uma realidade limitada elevada ao caráter incondicional e último, a pessoa
pode se encaminhar para o desespero e a desintegração total.
“Fé e dúvida têm sido
colocados como opostos, exaltando-se a certeza da fé como o fim de toda a
dúvida. É verdade que existem semelhante serenidade muito além das agitadas
lutas entre fé e dúvida; e alcançar este estado é um desejo natural e justo.
Mas, mesmo quando ele é atingido – como, por exemplo, por santos ou pessoas que
estão firmes em sua fé - , nunca está ausente o elemento da dúvida. Nos santos,
a dúvida aparece como o mostram as lendas em tornos dos santos, sob a forma de
tentação, a qual aumenta na medida em que cresce a santidade. Nas pessoas que
clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são freqüentemente a
prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda
está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela
coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como
expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca
incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção
inquestionável. Ela engloba o risco sem o qual não é possível qualquer vida
criativa. Quando por exemplo a preocupação incondicional de uma pessoa é a
convicção de que Jesus é o Cristo, então semelhante fé não é uma questão de
certeza isenta de dúvida, e sim de coragem que se arrisca, que encerra o perigo
do fracasso. Mesmo quando a confissão “Jesus é o Cristo” é exprimida com a
convicção mais profunda, ela contém risco e coragem. A própria “confissão”
indica isso” (A dinâmica da fé, p.
66).
A vivência da fé sempre traz
consigo os dois pólos: a fé e a dúvida. Portanto, a fé requer decisão e
coragem. A dúvida existencial não é uma perda da fé, mas é a confirmação da fé.
A busca da
vida-sem-ambigüidade
“Em
todos os processos da vida estão misturados um elemento essencial e um elemento
existencial, bondade criada e alienação, de tal forma que nem um nem o outro é
exclusivamente efetivo. A vida sempre inclui elementos essenciais e
existenciais; essa é a raiz de sua ambigüidade.
As ambigüidades da vida são
manifestas sob todas as dimensões, em todos os processos e em todos os reinos
da vida. A busca da vida sem-ambigüidade está latente em toda parte. Todas as
criaturas anseiam por uma realização não-ambígua de suas possibilidades
essenciais; mas somente no homem, como portador do espírito, as ambigüidades da
vida e a busca da vida sem-ambigüidades se tornam conscientes. Ele experimenta
a ambigüidade da vida em todas as dimensões, já que ele toma parte em todas
elas, e experimenta-as imediatamente dentro de si mesmo como a ambigüidade das
funções do espírito: da moralidade, cultura e religião. A busca da vida
sem-ambigüidade resulta dessas experiências; essa é a procura por uma vida que
haja alcançado aquilo rumo ao qual ela se auto-transcende.
Já que religião é a
auto-transcendência da vida no reino do espírito, é na religião que o homem
começa a busca da vida sem-ambigüidade e é na religião que ele recebe a
resposta. Mas a resposta não se identifica com a religião, já que a própria
religião é ambígua. A realização da busca da vida sem-ambigüidade transcende
qualquer forma ou símbolo religioso no qual ela se expressa. A
auto-transcendência da vida nunca atinge incondicionalmente aquilo rumo ao qual
transcende, embora a vida possa receber sua auto-manifestação na forma ambígua
de religião.
O simbolismo religioso
produziu três símbolos principais para expressar a vida sem-ambigüidade:
Espírito de Deus, Reino de Deus, e Vida Eterna. Cada um deles e sua relação
recíproca requerem uma breve consideração preliminar. O Espírito de Deus é a
presença da Vida Divina na vida da criatura. O Espírito Divino é “Deus
presente”. O Espírito de Deus não é ser separado. Portanto, podemos falar em
“Presença Espiritual” para revestir esse símbolo de um significado pleno. [...]
Reino de Deus é a resposta
às ambigüidades da existência histórica do homem mas, por causa da unidade
multidimensional da vida, esse símbolo inclui a resposta à ambigüidade sob a
dimensão histórica em todos os reinos da vida. A dimensão da história se
atualiza, por um lado, nos eventos históricos que mergulham suas raízes no
passado e determinam o presente, e por outro lado, na tensão histórica que é
experienciada no presente, mas corre irreversivelmente na direção do futuro.
Portanto, o símbolo Reino de Deus engloba tanto a luta da vida sem-smbigüidade
contra as forças que provocam ambigüidade, como a realização última em cuja
direção a história caminha.
Isso conduz ao terceiro
símbolo: vida-sem-ambigüidade é Vida Eterna. Aqui o material simbólico é tomado
da finitude espácio-temporal da todas as formas de vida. A vida-sem-ambigüidade
conquista a servidão aos limites categoriais da existência. Isso não significa
uma continuação sem fim da existência categorial, mas a conquista de suas
ambigüidades. [...]
Vida-sem-ambigüidade pode
ser descrita como vida sob a direção da Presença Espiritual, ou como vida no
Reino de Deus, ou como Vida Eterna. [...]
A busca de tal
vida-sem-smbigüidade é possível porque a vida tem o caráter de
auto-transcendência.” (Teologia
Sistemática, p. 466 – 468)
“Nós não podemos possuir
Deus; mas nós podemos esperar por ele. Espera pressupõe aquilo que ainda não é
realidade. Se nós esperamos em esperança e paciência – também além da festa
anual de Natal – , então a força daquele, em quem esperamos, já é atuante em
nós; pois nós somos possuídos por aquilo que esperamos. Nós somos mais fortes
quando esperamos do que quando possuímos.”
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