O livro As interpretações do Apocalipse,
organizado pelo professor doutor Marvin Pate apresenta os quatro modos de se
compreender hoje o Apocalipse: preterista, idealista, dispensacionalista
progressivo e dispensacionalista clássico.
Nesta
obra, esses pontos de vista são defendidos por especialistas bíblicos que
também interagem com outras correntes de interpretação, como: Kenneth L. Gentry
Jr., Sam Hamstra Jr., Robert L. Thomas, além do próprio Marvin Pate.
O
Apocalipse é um dos livros bíblicos mais difíceis de serem interpretados.
Caracteriza-se pelo emprego frequente de símbolos e figuras. Seus intérpretes
discordam a respeito do modo e do tempo em que as visões dos capítulos 6 a 19
são cumpridas. Ao analisar pensamentos divergentes e, por vezes,
complementares, esta obra ousada proporciona ao leitor a oportunidade de
aprofundar-se no conhecimento de temas relevantes da teologia cristã.
Ponto de Vista Preterista:
O preterista enfatiza que grande parte das
profecias de João ocorreu no século I. As profecias pronunciadas por ele
apontavam para o futuro, e os seus interlocutores as leram, mas, em relação a
nós, no século XXI, elas estão no passado. Eles afirmam que o Apocalipse é um
livro altamente figurativo que não podemos abordar a partir de um literalismo
direto e simples.
Assegura, positivamente, que os eventos afirmados
por João, estão em nosso passado distante. É exegeticamente fundamentado, pois
estão arraigados em princípios hermenêuticos sólidos.
Os preteristas apregoam que João está escrevendo
para seres humanos, mas não sobre Deus, portanto, o Apocalipse é
particularmente motivacional; que João está escrevendo para sete igrejas
específicas, históricas, a respeito de terríveis circunstâncias presentes que
elas estão vivendo; O Apocalipse promete que não haverá nenhuma demora. (10.6);
É enfático e declarativo; É harmonicamente paralelo (compara Apocalipse 6 com
Mateus 24).
Os preteristas se contrapõem à réplica daqueles que
afirmam que esses eventos de fato ocorrem no primeiro século, mas que se
repetem depois, na história. Afirmam que não há nenhuma garantia exegética para
estas afirmações, sendo suas declarações meramente teológicas. O princípio
teológico, embora válido e aceito pelos evangélicos não possa governar
trabalhos completos, vastos e complexos como o Apocalipse.
Quanto ao tema apocalíptico (Ap 1.7), o preterismo
afirma que o foco de atenção do Apocalipse (ainda que não o único) é que “Deus julgará os
judeus do século I por rejeitar e crucificar seu Ungido. Lembremos das palavras
do povo judeu quando do julgamento do Cristo: ”Crucifica-o” “Que o sangue dele
caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mt 27.22.25, v. Jo 19.1-16). Em seu
contexto definido para o v.7, percebemos que está apontando para destruição de
Jerusalém e seu templo em 70 d.C, que traz vários resultados dramáticos, entre
eles: a ira de Deus por rejeitar seu Messias, conclui a antecipação da aliança
antiga, já antiquada e por envelhecer, fecha o tema do sacrifício tipológico,
reorienta a adoração a Deus e universaliza a fé cristã.
De forma interessante, João menciona o “trono de
Deus” em 18 dos 22 capítulos do livro. Das 62 vezes em que aparece a palavra
“trono” no NT, 47 delas são encontradas em Apocalipse, indicando uma forte
tendência relativa a julgamentos no livro.
Quanto aos sete rolos selados, os preteristas
apresentam quatro controles interpretativos: 1) o rolo deve se aplicar a
eventos do século I, porque o “tempo está próximo”.(1.3;22.6,10,12; v. 6.11);
2) o rolo deve se referir a Israel, porque o tema do Apocalipse recorre “
aqueles que o traspassaram” (1.7; 11.8); 3) O rolo deveria ter provas do AT,
porque a influência do AT em Apocalipse é predominante. O rolo deveria ser
consistente com a fluidez do Apocalipse, por estar intrinsecamente estruturado.
Com respeito aos sete selos, observam que há um
“paralelismo íntimo entre o Sermão do Monte das Oliveiras de Jesus” e os selos
do Apocalipse. E como o preterista lembra, os contextos das duas profecias se
relacionam a eventos do século I (v. Ap 1.1,3 com Mt 24.2,3,34). Eusébio
(260-340) usou a história de Josefo da Guerra dos judeus (67-70 D.C.) para
ilustrar o cumprimento da profecia do discurso do Monte das Oliveiras (História
eclesiástica 3:5-9).
Com respeito aos 144 000 selados, o preterista
concorda com a maioria dos estudiosos, de que o número é certamente simbólico,
como em Apocalipse todos os milhares perfeitamente arredondados parecem ser.
Afirmam ainda que estes selados são a raça de judeus provenientes das doze
tribos de Israel, que aceitam o Cordeiro de Deus para a Salvação.
A interpretação preterista não leva em conta a
diferença da palavra “tempo” (kairos, e.g., Ap 1.3). A posição preterista
alivia desnecessariamente a tensão entre o já (primeira vinda de Jesus) e o não
ainda (a segunda vinda de Jesus). O ponto de vista preterista está intimamente
relacionado à hipótese da identificação da Babilônia, que é destruída nos caps.
17 e 18, com Jerusalém, mais particularmente com o Judaísmo do século I que
desfrutou de uma condição privilegiada por Roma por ser uma religião legal.
Ponto de
vista Idealista:
O idealista aborda o livro de Apocalipse simbólica
e espiritualmente, sendo chamado, às vezes, de a visão espiritualista. O livro
é visto desta perspectiva que representa o conflito contínuo do bem e do mal e
não possui conexão histórica com nenhum evento específico, seja político ou
social. A visão idealista se distingue das demais, recusando nomear as
declarações que precedem a qualquer correspondência histórica, e assim nega que
as profecias no Apocalipse são proféticas, exceto no sentido mais geral da
promessa do último triunfo do bem quando Cristo retornar.
A origem da escola idealista de pensamento pode ser
remontada às origens da hermenêutica alegórica, ou simbólica, defendida pelos
pais da igreja de Alexandria, especialmente Clemente e Orígenes. O idealista,
como já mencionado, não restringe os conteúdos do livro a um período da
história em particular, mas vê isto como uma dramatização apocalíptica de
batalha contínua entre Deus e o mal. Porque os símbolos são polivalentes no
significado e sem referente histórico específico, a aplicação da mensagem do
livro é restrita.
Segundo os próprios idealistas, os cristãos
modernos deveriam adotar uma abordagem idealista porque o seu ponto de vista se
baseia em um sólido fundamento hermenêutico.
O idealista reconhece a natureza apocalíptica do
livro de Apocalipse, embora admita que o livro contém elementos epistolares.
Também acredita que João emprega o estilo apocalíptico para levar sua mensagem
ao leitor. O idealista não somente reconhece o texto como literatura
apocalíptica, mas também o interpreta como esse tipo de literatura. Ao reconhecer
isso, o intérprete idealista prefere uma abordagem não literal para cada
versículo do livro. Para o idealista deve haver uma boa razão para se abster de
interpretação simbólica do texto.
Ponto de vista Dispensacionalista Progressivo:
Na década de 80, certos teólogos
dispensacionalistas iniciaram uma reconsideração do sistema e desenvolveram o
que foi chamado de “progressivo” ou “modificado”. A ideia abrangente que contém
essa interpretação é sua aderência hermenêutica do “já/ ainda não”. Esse sistema
vê a primeira e a segunda vinda de Cristo pela lente da tensão da escatologia.
A primeira vinda testemunha a inauguração do Reino
de Deus, ao passo que a segunda resultará em sua realização completa. Aí,
então, o cristão vive na tensão entre a era por vir e esta presente e má.
Os progressivos acreditam que Jesus começou seu
reino davídico na ressurreição. A igreja não é um parêntese no plano de Deus. A
nova aliança está começando a ser cumprida na igreja. A promessa do AT sobre a
vinda dos gentios para adorar o verdadeiro Deus ao término da história, também
está experimentando realização parcial na igreja. (Rm 15.7-13)
Os progressistas focalizam também o Apocalipse 1.9
como a chave para a estrutura do livro, mas em lugar de examinar o versículo
delineando passado, presente e futuro, este ponto de vista percebe somente dois
períodos no trabalho.
O dispensacionalista progressivo também vê o
desdobramento da história com pessimismo, porque ele é Pré-milenarista em sua
perspectiva. Porém, a hermenêutica do já/não ainda não ajusta esse pessimismo à
convicção otimista que o Reino de Deus alvorece espiritualmente, dando, assim,
grande esperança ao povo de Deus.
Os progressistas são cautelosos quanto a não
necessariamente comparar esta geração atual com a última antes do retorno de
Cristo. Pode ser, ou pode não ser.
O contexto histórico-cultural é importante para o
dispensacionalista progressivo quando interpreta o texto sagrado. Este
princípio hermenêutico é relevante para a compreensão do livro do Apocalipse,
como por exemplo, os capítulos 4 e 5 onde os mais recentes estudiosos
reconhecem, há um conflito histórico-cultural entre judeus-cristãos e o culto
imperial Greco-romano.
Com respeito aos sofrimentos messiânicos ou os
sinais dos tempos que ocorrerão imediatamente antes do aparecimento do Messias,
dois assuntos servem como diretrizes para um ponto de vista dispensacionalista
progressivo: 1( o período das aflições e 2) a identificação dos santos da tribulação.
A abordagem dispensacionalista progressiva do
Milênio (Ap 20) será claramente pré-milenar. Embora os crentes sejam
espiritualmente levantados com Cristo na conversão e atualmente reinam com ele
do céu, mas a plenitude de Cristo só se dará por ocasião do segundo advento de
Cristo.
Referente à separação entre igreja e Israel, os
progressistas acreditam que os gentios já foram incluídos como um povo de Deus,
pela fé em Cristo; mas Deus ainda não pôs fim a Israel porque um dia
restabelecerá aquela nação para ele e Jesus, o Messias.
De acordo com os despensacionalistas progressivos,
embora os sinais dos tempos (as aflições messiânicas) tiveram início durante a
primeira geração de cristãos, a grande tribulação ainda não ocorreu; Ela está
no futuro, e a igreja estará isenta dela.
Ponto de vista Dispensacionalista Clássico:
Durante o século XX a interpretação mais popular do
Apocalipse foi o dispensacionalismo, uma das variantes do pré-milenarismo. O
nome do movimento é derivado da palavra bíblica “dispensação”, um termo que
recorre à administração da casa de Deus.
Os dispensacionalistas dividem a história da
salvação em eras históricas ou épocas para distinguir as administrações
diferentes do envolvimento de Deus no mundo. Scofield definiu a dispensação como
“um período de tempo durante o qual o homem é testado em relação à sua
obediência a alguma revelação específica do testamento de Deus.”
A autenticidade do dispensacionalismo foi seu
compromisso a uma interpretação literal da escritura profética. Isto resultou
em três outras doutrinas famosas, apreciadas por partidários do movimento: 1)
Uma distinção entre as profecias feitas sobre Israel no AT e a igreja no NT
deve ser mantida. A igreja não substitui Israel no plano de Deus. Então, a
igreja é um parêntese no término desse plano.
Os dispensacionalistas são pré-milenaristas; quer
dizer, eles crêem que Cristo virá novamente e estabelecerá um reinado
temporário, mil anos em Jerusalém. Eles acreditam no arrebatamento
pré-tribulacionista, isto é,o retorno de Cristo acontecerá em duas fases: a
primeira para sua igreja que será poupada da grande tribulação; a segunda em
poder e glória para conquistar seus inimigos.
O dispensacionalismo parece ter sido articulado
primeiramente pelo clérigo anglicano irlandês John Nelson Darby, líder
influente no movimento dos irmãos Plymouth na Inglaterra, no século XIX. O
entendimento do dispensacionalismo clássico do tempo do Apocalipse e sua
estrutura caminham juntos. Porque essa escola de pensamento interpreta as
profecias do livro literalmente, seu cumprimento, então, é percebido como ainda
futuro (espec. 4 – 22). Além disso, o dispensacionalista clássico acredita que
a falta de menção da igreja no capítulo 4 indica que esta será arrebatada ao
céu por Cristo antes do advento da grande tribulação (*Caps 6 – 8). Como o
dispensacionalismo está intimamente associado ao pré-milenarismo, não
surpreende que essa perspectiva veja a história do mundo com pessimismo.
Posicionamento
Crítico:
O ponto de vista preterista considera a
interpretação histórica do Apocalipse, relacionando-a com seu autor original
isto é, João tinha como alvo as verdadeiras igrejas que enfrentaram horríveis
problemas no século I.
A tentativa contínua de firmar o cumprimento das
profecias divinas no século I D.C. constitui a abordagem distintiva dos
preteristas. Eles localizam a cronometragem do cumprimento das profecias do
Apocalipse no século I, especificamente logo antes da queda de Jerusalém em 70
D.C.
Os argumentos básicos para isto são: o fato de
haver alusões a Nero ao longo do Apocalipse como o Imperador da época; as
condições das igrejas da Ásia menor correlaciona-se melhor com o cristianismo
judeu anterior ao ano 70; de acordo com Apocalipse 11, o templo parece ainda
estar erguido.
O cerne da abordagem idealista é que o livro do
Apocalipse apresenta preceitos espirituais por meio de símbolos, ao invés de um
livro de profecia cumprido em eventos específicos ou pessoas na história
humana.
As objeções ao Futurismo são
semelhantes àquelas contra o Preterismo. O Futurismo torna o livro de
Apocalipse de pouco valor para a maioria dos cristãos no que se refere ao
desenrolar da maior parte da história. A maioria dos cristãos é ignorada ao
longo da história. Dirige-se somente aos que vivem nos últimos momentos da
história. O Futurismo estreita demasiadamente a perspectiva da Revelação.
O historicismo é o método de interpretação da
profecia que declara que o livro do Apocalipse é um histórico profético da
igreja e do mundo, desde o tempo de João até o segundo advento.
As predições dadas no livro do Apocalipse não são
somente movimentos gerais na história, declara o Historicismo. Mesmo eventos
específicos são preditos. Isso inclui a identificação de datas reais do
calendário.
Hoje, somente um pequeno número
de eruditos protestantes é conhecido como historicistas. Esses eruditos se
acham somente em grupos isolados. Os mais conhecidos dentre tais grupos são os
membros da denominação adventista do sétimo dia.
Aplicação
Prática:
Devemos sempre começar nossa exegese da Escritura
considerando as pessoas e tempos a que sua mensagem se dirigia. Para entender o
que lhes foi escrito devemos entender o que para eles significava.
Juntamente com isso, reconheçamos a sabedoria de
Deus, cujos anos não têm fim e que prometeu nunca esquecer a igreja. Este é
Aquele que declarou através de Amós: "Certamente, o Senhor Deus não fará
coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os
profetas". (Amós 3:7).
Certamente Este pode ser digno de confiança quanto a
que manterá a sua promessa.
Em vista de que Deus nunca muda os Seus justos
caminhos, Ele será o mesmo em todas as épocas. As obras de Deus sempre
refletirão o mesmo selo, conquanto estejam em diferentes estágios de
desenvolvimento.
O princípio dispensacionalista progressivo vê
sucessivos cumprimentos da profecia. Esses cumprimentos atingem o clímax nos
últimos dias. É provavelmente, a meu ver, a melhor ferramenta interpretativa de
todas quando a ligamos com os princípios contextuais gramaticais, históricos e
hermenêuticos.
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